"Olá a todas e a todos independentemente de quem vos faz acelerar o coração, sentir borboletas na barriga ou querer fazer parar o tempo.
Como já repararam este é o tipo de coisas que me faz tremer. E isto não é uma metáfora. Tipicamente isto passa passado uns minutos de eu perceber que vocês são pessoas como eu. Como também já perceberam eu estou a ler, inclusivé as piadas, como esta.
Os responsáveis pelo projecto convidaram-me para fazer o lançamento do livro. Eu presumi que fosse dizer umas palavras, o que foi muito bom porque eu queria mesmo dizer umas palavras.
Como é que começou e de onde vem este projecto?
Quando eu me vi confrontado com a realidade de que era homossexual e que não havia nada que eu pudesse fazer em relação a isso, o meu estado de desespero e ignorância criou em mim a necessidade de pôr tudo cá para fora. Ao partilhar a minha história com outras pessoas percebi que as histórias podem ajudar. Podem ajudar outros a compreender o que é que é isto de ser homossexual e o que é que isso significa nas nossas vidas.
Um amigo, a quem hoje agradeço, desafiou-me a publicar a minha história e, apesar do meu medo da exposição ao preconceito, eu aceitei o desafio.
No entanto, senti que aquele livro não era suficiente, pois era apenas a minha história. Quando num, curso em Londres, me surgiu a oportunidade de realizar um projecto à minha escolha esta ideia foi natural.
Este projecto tinha que ter algumas especificidades. Tinha que escolher uma comunidade da minha vida com quem eu quisesse transformar a minha relação, e essas seriam as pessoas que iriam realizar o projecto. Eu pensei “se eu fizer um livro de histórias de partilha sobre a homossexualidade com a minha comunidade de amigos isso vai transformar a forma como eles se relacionam com o assunto, e indirectamente comigo”. Como eu sou egoncêntrico pensei: “Isto agrada-me”.
Este projecto era por causa de mim e era por causa de vocês. Por isso, deixem-me aproveitar esta oportunidade para fazer um agradecimento especial aos meus amigos. Dizem que quem tem amigos tem tudo e eu acrescento, quem tem amigos como vocês tem muito mais. É um privilégio partilhar com vocês a minha vida.
Mas deixem-me dizer que ao longo destes meses eu percebi que este projecto não é por causa de mim nem sequer por causa dos meus amigos.
Este projecto não é por causa de vocês.
Este projecto não é por causa dos autores que partilharam as suas histórias.
Este projecto é por causa das pessoas que vão ler este livro.
Este projecto é por causa das pessoas que acham que têm um problema e sobre as pessoas que concordam com elas.
Este projecto é por causa daquilo que é possível se vivermos num mundo de partilha e amor.
E para esse mundo, a única coisa que é preciso é não paramos. É fazermos coisas. Fazermos coisas diferentes. Se fizermos coisas diferentes vamos de certeza viver num mundo diferente.
Este é também o momento para dizer Obrigado!
Obrigado a todos os que contribuíram para que esta não fosse apenas mais uma ideia.
Obrigado aos 130 autores pelas vossas partilhas. Por ousarem abrir um bocadinho a porta da coisa mais preciosa que têm, a vossa vida – sem vocês este livro não existia – Parabéns pela vossa coragem.
Obrigado ao Prof. Daniel Sampaio pela gentileza e disponibilidade de se juntar a esta iniciativa
Obrigado a todos os que com entusiasmo divulgaram o projecto e chatearam os vossos amigos e famílias para partilharem as suas histórias. Conseguiram um livro de 140 histórias em 556 páginas de partilha.
Um agradecimento especial à Maria Costa, à Joana Fernandes, ao Carlos Mendes e ao Tiago Cristóvão por em Abril quando eu lhes disse: “Sabem aquele projecto do Partilha’te, das histórias sobre a homossexualidade, eu gostava de vos convidar para assumirem a liderança do projecto e me substituírem, pode ser?”. Vocês não fugiram, não me desligaram o telefone. Mais, vocês trouxeram o projecto até aqui! O que vocês conseguiram é Brutal! Obrigado.
Sei que muitos, ou todos, durante este projecto foram desafiados a sentir uma parte do preconceito que ainda existe na nossa sociedade, e em nós. Foram questionados sobre o porquê de estarem a divulgar ou a participar num projecto sobre a homossexualidade. Questionaram-se sobre o que é que as outras pessoas iriam pensar de vocês. Mas isso não vos parou de o divulgarem. Não vos parou de contribuírem.
Aprendemos com vocês que se agirmos perante o medo, coisas surpreendentes acontecem.
PARABÉNS PELA CORAGEM.
Finalmente, peço-vos que durante os próximos minutos parem a voz que têm dentro da vossa cabeça e que vos impede de me ouvirem sem preconceitos. Se estão a pensar que raio de voz é que ele está a falar, é essa mesma.
Deixem-me terminar falando do futuro. Do futuro do projecto. Do futuro deste livro. O que é que é possível neste futuro? Que mundo é esse que vamos viver no futuro?
É simples, tudo é possível. Mas deixem-me lançar algumas hipóteses de mundos.
Que mundo seria esse se todas as crianças e jovens lessem este livro? O que é que seria possível se eles soubessem que é normal ser diferente? Se soubessem que todos somos diferentes independentemente do motivo e isso é o que nos tornem iguais?
Que mundo seria esse se outras 140 histórias fossem escritas? O que é que passaríamos a saber que hoje não conseguimos sequer imaginar?
Que mundo seria esse se as nossas familias e todos os nossos amigos lessem este livro? O que é que seria possível?
Que mundo seria esse se este livro fosse divulgado a nível nacional? O que é que seria possível?
Que mundo seria esse se tivessemos referências na nossa sociedade que não se fechassem nos seus armários? O que é que seria possível?
Que mundo seria esse se houvessem livros destes sobre todos os temas que fazem as pessoas sofrer por se sentirem diferentes? O que é que seria possível?
Eu não sei, mas quero viver nesses mundos!
Sei que provavelmente isso não dependerá apenas de mim. Mas saibam que sepende sempre de nós, é uma escolha que fazemos todos os dias.
Vamos fazer coisas bonitas, porque as coisas bonitas são buéda fixes!
Eu sei que a partir de hoje o mundo será diferente e isso inspira-me. Mesmo pobres, num país onde achamos muitas vezes que temos de nos esconder, que as nossas coisas são as nossas coisas, onde temos muito medo de partilhar, e sobretudo partilhar o fracasso, 130 pessoas deram um passo em frente e partilharam-se.
Eu não sei quanto a vocês mas eu bato palmas!"
Ricardo Lapão, 24 de Junho de 2009