A expressão "Coming Out", ou "Sair do Armário", está associada ao processo através do qual um pessoa partilha a sua orientação sexual (diferente da da maioria) a alguém. Aos pais, a um amigo, no trabalho...
Para mim, esta expressão representa um processo muito mais longo, mas também mais pessoal. Um processo que vai desde que a pessoa "nasce sexualmente" até que a pessoa morre. Assustador?
Não sei se conhecem os 5 estágios de Kubler-Ross: Negação, Raiva, Negociação, Depressão e Aceitação. Este
modelo descreve o processo pelo qual as pessoas passam quando lidam com a perda, o luto ou a tragédia.
Pela minha experiência pessoal o Coming Out é um processo de perda e de luto, dado que perdemos uma identidade que fomos co-construindo socialmente, e que há medida que vamos percebendo que não muito há que possamos fazer em relação ao assunto vamo-nos permitindo fazer o luto dessa perda. É através desse luto que permitimos que possa nascer uma nova identidade, coerente com a nossa natureza.
Por partes. A fase de Negação é, para mim, a fase em que nós não pomos sequer a hipótese de ter uma orientação sexual diferente da maioria (isto não está a acontecer!), embora sintamos que há algo de diferente quando olhamos para um rapaz ou rapariga. (Não deixa de ser engraçado que só é possível estarmos em negação em relação a algo que somos, porque senão fossemos não precisavamos de estar em negação :) Eu acho que estive nesta fase, pelo menos, entre os 14-26 anos, alternando com as fases seguintes.
A fase da Raiva na minha vida é fácil de identificar. Eu lembro-me de escrever textos onde eu me comprometia a "portar-me bem" para que "aquilo" desaparecesse e me castigava por ser assim. Fazia promessas solenes de que não voltaria a ter tais pensamentos, ás vezes agarrava-me a Deus, outras vezes a outros conceitos como honra, etc.. Esta fase é aquela em que nos perguntamos "porquê eu?" e sentimos uma série de emoções negativas relativamente a nós próprios e em relação ao mundo.
A fase da negociação é, para mim, a fase em que começamos a procurar compromissos que nos permitam ter algum equilibrio entre viver a nossa sexualidade e ao mesmo tempo defendermos a nossa identidade social. Eu lembro-me de começar a pesquisar coisas na net sobre o mundo gay, ir a chats online. Tentava encontrar respostas, perceber como é que os outros viam o mundo. Lembro-me de ás vezes me assumir como bissexual nas conversas de chat que significava: "eu sinto-me atraido por homens mas não quero ser assim". Nesta fase cheguei a ter relações homossexuais que me levavam ao esforço desgastante de ter que gerir uma vida dupla.
A fase da depressão é fase do "nada vale a pena, para quê preocupar-me?". Eu sinceramente não me lembro de ter passado por esta fase, ou pelo menos não a consigo identificar claramente. Lembro-me de pensar em suicidio, mas de saber que nunca o iria fazer, lembro-me de me sentir bastante triste, abandonado, incompreendido, com medo, mas sempre houve qualquer coisa que me fazia andar para a frente e não desistir de encontrar um caminho para a felicidade.
A fase da aceitação acho que é a fase em que conquistamos qualquer coisa que nos deixa mais tranquilos. E é por causa disso que acho que o coming out é um processo de vida, porque há sempre mais para conquistar. A minha primeira grande conquista foi quando assumi perante mim mesmo, depois quando contei aos meus amigos, a seguir aos meus pais, e hoje em dia pretendo conquistar um bocadinho todos os dias, o que na prática significa trabalhar para me sentir confortável com quem sou. Sei que não sou a minha orientação sexual, a minha orientação sexual é apenas uma parte de mim. Sei que existe homofobia, sei que existe muita ignorância em relação à homossexualidade, e então? Porque é que isso me há-de impedir de ser feliz?
Hoje em dia acredito que como homossexual tenho de ser o primeiro a lidar com isso com naturalidade, e isso é um processo.